quarta-feira, 19 de junho de 2019

Tio Wilson (Wilson de Almeida, o Cartí)

A doença me pegou de repente, durante semanas um caroço me incomodou em minha bochecha, a princípio achei que não era nada grave, até que o oncologista diagnosticou coisa séria, desdenhei. Foram inúmeras sessões de rádio-terapia e quimioterapia. Minha mulher não estava gostando disso, ela odiava ter de passar por aqueles lugares tenebrosos comigo, mas eu tive força e encarei tudo com bastante cinismo. A morte, se tinha de chegar, chegaria na hora certa, sem choro nem vela. Ainda realizava atividades quotidianas comuns como ir ao supermercado e à padaria, mas também isso era cansativo, queria mesmo era o conforto do meu lar, não queria parar de produzir a minha arte, meu sonho artístico ainda não se fora, permanecia comigo em meu âmago.

Tinha alguns pesadelos, suava frio à noite, tossia uma tosse seca e sem precedentes, por fim até tive esperança de que ia me curar, da noite do pro dia quem sabe a sede viver poderia brotar e fazer com que eu vivesse mais algum tempo, quem sabe mais uns cinco anos, mas não, foi tudo muito rápido. Tive com a minha morte de abandonar minha família, minha esposa a quem tinha extrema devoção, indescritível amor, amparava a ela mesmo em suas crises mais agudas, mas que me serviam de aprendizado sempre. Na verdade, quer queira quer não, aprendíamos um com o outro, numa troca de afetos sutis e embelezadores da relação.

Deixei todos de mão abanando, minha irmã Enil, por exemplo, foi uma que demonstrou grande amor por mim e pela minha recuperação, agora já se passaram mais de três meses e estou ainda em estado de inconformismo, minhas coisas ainda são terrenas, a sede do meu pensamento ainda é carnal, ainda sofro algumas dores decorrente da doença, mas tenho o privilégio de conhecer o outro lado da moeda por aqui. Aqui posso aquilatar ainda mais os meus conhecimentos, minha prática artística teria sido muito beneficiada se eu soubesse anteriormente que os matizes e as paisagens daqui são inauditas, intransponíveis para o mundo carnal. Os olhos carnais jamais enxergariam os encantos do lado de cá e Deus me ampara em minha dor de perder a presença de meus entes queridos.

Dias antes de minha morte parecia que tudo corria bem, parecia que eu havia me recuperado, mas de uma hora para hora a enfermidade se alastrou para outros órgãos e meu corpo não suportou tamanha força do adoecimento. Fiquei em um leito de hospital vagando entre a consciência de estar ali e de não estar ali, como consciência por fora e inconsciência vagante, sabia que nessas horas de viagem astral eu já estava me despedindo. Enfim, acreditei em Deus, o ser maior da criação, deixei de ser ateu, para honrar minha existência com um toque refinado da divindade.  

Percorri muitos lugares bonitos, mas de quando em quando retorno à terra para fazer visitações e matar a saudade dos lugares onde estive e com quem estive, principalmente com minha esposa Beth, que se viu totalmente desamparada neste fim de vida que tive. Ela lutou, lutou muito, minha irmã Enil, mais racionalmente também fez as suas contribuições, mas todas as vezes que eu ia "passear", queria mesmo era passear para lugares bons de se ir, não para tratamento oncológico em hospitais. No dia de meu sepultamento pude enxergar as faces de cada um ao se despedirem de mim, foi natural com eu esperava que fosse, sem mais delongas e sem ataques de nervos. Afirmo: todos hão de passar por essa fase, a fase da passagem da vida para a morte e tudo deve ser encarado com a maior naturalidade possível. Sejamos naturais.

terça-feira, 18 de junho de 2019

O limite extremo

Viver no limite extremo é tentar a todo momento vencer o cansaço que impera a cada manhã e quando se tem a oportunidade de dormir continuar acordado. Hoje estou no limite extremo, super cansado, esperando as horas passarem, mas sei que embora podendo acordar tarde amanhã, talvez o descanso não seja o meu destino. As horas correm muito depressa, não há tempo suficiente de recarga, sempre um tijolo depois do outro. Não poderia estar fazendo isto comigo, mas talvez hoje eu ceda e vá para a cama cedo e durma o sono dos justos, tomando certa dose de medicamentos divinos.

Estou escrevendo isto para passar o tempo mesmo, pois ficar parado no lugar onde estou é uma tortura, tem sido para mim desde que retornei ao trabalho com desvio de função, estou sendo subutilizado, esta é que é a verdade, e nos momentos entre uma escola e outra, em vez de descansar vou pra rua tentar me divertir, tentar de certa forma esquecer que tenho este tipo de compromisso: estar estagnado, parado, estático, vendo minuto a minuto as horas do relógio passarem. Aqui as horas não passam, fora daqui as horas voam. Por que será?

Com dores no corpo devido aos excessos não posso crer que resistirei por muito tempo nesta rota trágica, isso porque repleta de infelicidade para mim, no limite extremo do corpo. Mas quando estou fora daqui parece que o corpo aguenta mais, parece que o cansaço some, e tudo fica muito mais normalizado. É importante mesmo tentar distinguir entre o que me faz sentir cansado e o que não me faz sentir cansado. Estar no limite extremo tem lá as suas variáveis, mas o fato é que no ambiente de trabalho o cansaço e monotonia têm imperado de forma massacrante.


By  Saulo Cruz 
Saio daqui então, desligo o computador, não vou para casa, continuo minhas peregrinações por rua afora, meu corpo pedindo descanso e eu insistindo em permanecer acordado, vai chegando tudo ao limite extremo, nem a base de medicamento eu cedo e continuo acordado, cambaleando com olhos de peixe morto. Madrugada afora viro a noite, e me quebro todinho, quando a hora da cama chega durmo 24 horas, um sono reparador, mas posteriormente a essas 24 horas, fico mais 30 horas acordado. Sem grana, mas com recursos da lábia para permanecer fazendo o que venho fazendo de mim. Envelheço precocemente com a morte à espreita e os cabelos brancos se mostrando velozmente, como poetizara Fernando Pessoa em A Tabacaria:


Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Meu Blog já fora mais rico de assunto e de palavras, mas quem lerá isto afinal? É muito revelador hoje escrever sobre isso, antes as letras estelares eram astronômicas, metafísicas, hoje são muito intimistas. Este texto possui duas partes, uma iniciada antes da noite cansativa, outra depois da noite cansativa, e tudo só provou que não tenho cuidado algum com minha saúde. Já joguei fora pela janela meu equilíbrio deitei tudo fora, como tenho deitado a vida: 


Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Para me despedir, despeço-me dizendo que as coisas ainda continuam difíceis e o cansaço ainda não me tem permitido ter frequência ao trabalho, tenho faltado bastante, não tenho tido a responsabilidade que se deve ter em setores de trabalho. Tenho fracassado em meu retorno ao trabalho, como poderei retornar à sala de aula? Eis uma questão que me entristece muito. Não posso aliar os limites extremos que venho vivendo com o trabalho, a rua se tornou então algo maçante. O trabalho então nem se fala, não pensei que eu iria cair tanto em minha vida por conta de vícios noturnos, por conta quinquilharias, pois não é nada que presta que estou fazendo, nada que presta é que estou trocando o meu descanso pelas horas vagabundas.







quarta-feira, 12 de junho de 2019

A morte de entes queridos

Quando meu tio Wilson morreu pensei logo em minha mãe, de fato ela pode falecer também a qualquer momento e isso é o que me apavora. Perder mãe deve ser a coisa mais horripilante do mundo, ficarei sem chão, ela é minha única amiga. Em relação ao tio Wilson, o baque está vindo agora, porém em relação a todos os mortos da família, inclusive ele, parecem estar presentes, é como se a morte não fosse um desligamento ou de certa forma não significasse que eles não estivessem presentes. Quando digo baque, digo de forma paradoxal, pois sou sempre frio, mas o baque é que parece que a mortalidade está mais perto do que se imagina, inclusive a minha própria morte, 40 anos eu tenho, não sou imortal e venho me descuidando de minha saúde, o baque é que ele, o tio Wilson, parece não ter morrido, parece que ele ainda está presente e parece estar alertando a mim sobre os perigos dos excessos. No entanto, mesmo sem excessos, a morte pode acontecer a qualquer momento.

By Sérgio Câmara
Um dia peguei um táxi e o taxista que era pastor evangélico disse sem me conhecer que se eu não parar com os excessos fatalmente terei de me despedir deste mundo mais cedo. É fato que não quero me despedir deste mundo sem ao menos ter vencido na vida e ter parado com tudo que me prejudica, os excessos têm de acabar e as dívidas também. Pelos excessos é que a custo venho trabalhar e não tenho dúvidas de que de longe o tio Wilson me observa. Como minha mediunidade é fraca não consigo vê-lo, mas já há relatos de gente que o viu em seu quarto, mas eu consigo senti-lo quando faço coisas erradas. Já a situação da viúva dele, as coisas parecem estar mais complicadas, pois agora ela vive sozinha e isso deve ser muito ruim, às vezes ela busca refúgio em muitas pessoas erradas e ela teme também por morar sozinha na casa em que viveu com o Wilson.

Enfim, o tio Wilson me deixou assustado, ele se foi de uma maneira muito rápida e as pessoas quando morrem não deixam apenas saudades, as pessoas deixam as marcas da dependência de que nutriam as pessoas que as amavam. Ninguém queria que ele fosse, nem ele mesmo, um artista plástico de primeira, talvez tenha contraído o câncer devido à exposição prolongada à tintas tóxicas de que fazia uso sem proteção. Ele era muito divertido por sua inteligência, apesar de circunspecto e extremamente sistemático, sua morte só reforça a morte de todos os meus parentes inclusive a possibilidade de minha própria. Chega uma fase da vida da gente que os entes queridos se vão e vão deixando a nós sós neste mundo cão.

Meu primo Marcos, uma promessa; vovó, uma dádiva; vovô, um exemplo; tio Wilson, um prolongamento extrafísico da arte; papai, muito parecido comigo e que se foi apenas aos 46 anos de idade. Enfim, a morte é o fim do ciclo e pela qual temos de passar, infelizmente; eu, de minha parte, só espero que seja na paz do Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Leitura de O Continente de Érico Veríssimo


Foram-se lá 700 páginas divididas em dois livros (tomos) lidas, vindas de um escritor extremamente habilidoso. Sua narrativa tem riqueza de detalhes jamais vistos, trabalha também com flash-black e também faz as suas digressões temporais e histórias dentro de histórias. Além disso, a presença de ditados populares é marcante. No diálogo das personagens não fica de fora a sonoridade gaúcha de falar, parece que estamos no Rio Grande do Sul. A família vai e vai passando com o tempo e o vento, sempre que venta é que alguma coisa importante está acontecendo.

Ana Terra fora para mim encantadora, e triste fim fora o de Pedro, o índio, que chegara por acidente por aquelas bandas. Não bastasse o filho desta união desastrosa se chamasse Pedro também, quando mais velho conhecido como Pedro Terra, pai de Bibiana, que ocupa boa parte da narrativa, desde sua juventude bela até sua extrema velhice, esta se casara com um certo capitão Rodrigo, figura marcante, que o narrador se encarrega de enchê-lo de detalhes agradáveis, alegres e próprios de um bom gaúcho. Casaram-se a contragosto de Pedro Terra.

É possível visualizar plenamente o povoado em seus primórdios, o povoado de Santa Fé, pois as descrições suas são perspicazes, perfeitamente medidas, palavra por palavra, desde a figueira, o cemitério até o Sobrado. É um narrador onisciente, como ocorre durante as digressões psicológicas de Carl Winter, o médico, sobretudo muito interessantes. Em sua análise psicológica das personagens há o desejo, a decepção, o medo, a coragem, as contrariedades, a saudade, o amor, o desespero... As guerras contínuas dizimam muito boa parte dos homens de coragem daquelas bandas, mas dentro da verossimilhança histórica ir à guerra era uma questão de honra e comprovações de macheza.

No final e no início e entrecortadamente aparece a figura de Licurgo, também encantador, um cabra macho, noivo de Alice, mas que tinha uma amásia, homem de poucas palavras que teria como filho Rodrigo, figura central de O Retrato, continuação de O Continente.

Encaminho esta obra de Érico Veríssimo a todos os amantes de literatura e que tenham um gosto real por narrativas cheias, completas, embora o tempo histórico seja vertiginoso em alguns momentos, já o tempo psicológico se enche de miudezas em várias cabeças e os diálogos às vezes repletos de sarcasmo. Estão sempre presentes nesta obra a incerteza e os dilemas do destino. Obra magnífica, digna de grandes escritores brasileiros e do mundo, conta-se sobretudo a formação de um povo.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Às claras de novo

Após uma noite às claras lá estava ele novamente vivendo sua vida de trabalho monótona. Estar sentado numa cadeira. Diante dele o livro O Retrato de Érico Veríssimo. Neste dia em especial não queria ler, não estava mesmo era suportando a lentidão do relógio que devagar indicava as horas minuto a minuto.

Diante disso já acumulava muitas faltas e talvez não estivesse mesmo era suportando estar ali naquele lugar que definitivamente não era para si mesmo. Contudo o que não era para si mesmo era chegar virado todos os dias tendo recostado alguns minutos em seu travesseiro e cedinho "aterrissar" longe assim e na escola. Isso não. Isso teria de ser revisto, deveria dormir às 23 hs todos os dias para chegar bem ao trabalho, mas não, ficava por conta de sua ansiedade e das coisas erradas que fazia.


Isso já se tornara desespero, aliás tudo se firmara para ele como um desespero: os ônibus lentos, a chegada à escola e a quantidade de cigarros que vinha fumando.

Na verdade aquilo não era nada para ele, essa monotonia aliada às noites desesperadas. Por que passa a noite em claro mesmo sabendo das consequências que teria pela manhã? Ele, na verdade, não sabia era controlar suas experiências cotidianas, vinha se envolvendo demais com gente errada e essa gente não era muito lá boa de se mexer.  

Era necessário um equilíbrio que não poderia lhe faltar em hipótese nenhuma, necessitava pautar sua vida definitivamente com equilíbrio.Nesta hora em que escrevo estou virado e contando o relógio para que as horas passem absurdamente rápidas. Mas não, é necessário um pouco de sofrimento diante dessa proposta de ficar desviado de função. Enfim, hoje passará, mas e amanhã e depois de amanhã? Tudo ficará por conta de minha própria responsabilidade, terei de me implicar em tudo isso, assumir uma postura diferente.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A mortalidade

Com toda frialdade que exige a verdade, essa é necessariamente uma só: morreremos. Depois de passar por experiências de proximidade com a morte é tolice querer empreender novos projetos quando se passa dos 40. Ora, mais 20 anos, mais 10, mais 30 quem sabe, mas o corpo sente as pancadas que a vida dá. Então em confronto com a mortalidade a espiritualidade deve se revelar muito mais aguçada e cheia de mimos para com o paradisíaco. Em a Divina Comédia de Dante, é possível revisitar toda uma extensão de trechos que destinam o ser a seu destino categórico e merecido, dando à vida pouca valia e à mortalidade entrechos de pura verdade eterna.O Paraíso é necessário.

Como na juventude os pensamentos de jovem são cheios de luzes de imortalidade e aos 40 não é nada promissor, assim a realidade mortal sobrevém indelével. Jarros feitos para água e para flores não durarão para sempre como não durarão os estofados da sala tampouco os solados dos sapatos novos do vovô, bastante orgulhoso de seus trajes, eles lhe diziam muita coisa, embora tenha sido sepultado como simples mortal. Achei certa vez que ele jamais morreria, não o vi em seu sepultamento, falha minha, erro grosseiro. Estava entregue ao trabalho que me assediava e que não dava muito certo, não tinha maturidade. Nem para com a morte nem para com a vida.

Algumas falhas do sistema não permitem mais que eu diga como dizia em Letras Estelares que essas falhas são como em Matrix, detectáveis por entes escolhidos, talvez a realidade corpórea comece a dar seus vacilos e a dizer que a mortalidade só é sede do pensamento na juventude e o grande escolhido é escolhido jovem, quando capaz, voraz. No entanto, ainda existe um pensamento redentor que impulsiona o ente à vida, ainda existe um todo capaz de engolir tudo que não presta para enfim destruir a ilusão. A mortalidade assim ficaria por conta de quem não fosse capaz de assistir à apoteose do sistema vigente de coisas. Mas mesmo assim é difícil como erigir um novo blog, que ao menos contente com o antigo, que o 2 se inspire no primeiro e que a imortalidade chegue por fim triunfal como vida desenhada positivamente.

Por lubasi
Por nuvens muitos ex-cadáveres passaram e passarão vitoriosos, cintilantes, estelares, cambiantes em razão de uma mutação mortalidade versus imortalidade, não é necessário, pois, caminhar por todas essas cruzes, por todos esses grilhões, talvez seja necessário apenas crer, mais 30, mais 20, não sei, mas quando se chega aos 40, a questão que nos afunda a alma é esta: estamos ainda aqui e até quando resistiremos. Se ficarmos velhos e à míngua, se ficarmos por aqui e concluídos, se ficarmos com projetos bem mais avançados do que imaginaríamos em ter e reter. Sim, os bons projetos virão, mas as nuvens fatalmente não faltaram à nossa caminhada.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O equilíbrio e o desequilíbrio

De onde vem o equilíbrio? Certamente vem de uma mente esvaziada de poluição que ela mesma produz. O vazio, a folha limpa, é necessário limpar-se diariamente de experiências devastadoras à alma. Isso ela sente e reproduz em sequência. As marcas que carregam os que trabalham, as marcas que carregam os que se atarefam, as marcas invisíveis de quem assumiu um comportamento desequilibrado serão fatalmente encontradas como feridas físicas. Como em espelho refletido, o comportamento mal assumido, em atrito com o cerne do ser, esse se espalha rua afora contado em falsa euforia. O ser certamente prisioneiro de um corpo em desequilíbrio com o ambiente sofre com lágrimas de elefante. Não há choro corrosivo, há uma mistura de sal e água que desce sem o ente perceber. Lá dentro a forma do desequilíbrio o corrói. 

O equilíbrio estará então na necessidade de cada um de preservar sua sanidade por o maior espaço de tempo possível, quando dormimos por exemplo. Ao dormir, mostramos ao mundo que a vida existe, mesmo inerte. Um sonho possível. Ao despertar estamos descansados da euforia arrítmica que nos seduzia horas antes em pensarmos e realizarmos coisas desusadas e febris à alma. Nenhum nem ninguém nasceu para encher-se e entupir-se de lixo invisível.. O cosmos é puro e límpido, irradiando sua potência a todo aquele que pode exercer uma compreensão mais aberta do que seja ele: um clarão límpido.Na nascente de água brota a vida, pois ali existe o princípio básico do equilíbrio e da pureza.

Por Enrique Ferrer

A energia dispensada ao manter-se bem consigo mesmo é coincidente com a leveza de alma, como pluma entre degraus. Plana por lugares de sonhos de cidades desconhecidas, sobrevoa e corre no ar como aeronave. Uma cidade encontrada, com tudo que possui uma cidade, mas tecnicamente desconhecida. No sono semi-profundo pousa a consciência e a experiência do outro lado. O equilíbrio é estar sóbrio sob aquelas circunstâncias. O outro lado que também é responsável pela operação de desequilíbrio, a sujeira mora nos rodapés da alma. Pode insurgir a qualquer momento, desrespeitando o ente sacrificado ao estrangeirismo dessas ideias desequilibradas que, postas em prática, depauperam o ser.

Enfim, para arrancar-se da prisão é necessário muitos encontros com o interior de si, o âmago. Não é possível sobreviver sem que um dia o equilíbrio trabalhado advenha, e com muito esforço, é necessário transgredir certa ordem de coisas a fim de que não mais se repitam insistentemente os tropeços e desvarios. Sub-repticiamente as horas correm repletas de pensamentos ignóbeis, mas fortemente loquazes. Assim é necessário não só silenciar as vozes dessa cidade desconhecida, pois nos seus rodapés residem os loucos desequilibrados, como também na realidade palpável poder correr com a mente para o broto da vida, com seu verdinho promissor.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Postagens Antigas

Foram-se todas as postagens do antigo blog e necessito retroagir e tentar recuperar em letras toda a quantidade de esforços perdidos. Trabalho árduo deverá ser feito para que num futuro de cinco anos eu tenha tamanho número de postagens. A energia de outrora era muito vivaz, a de hoje nem tanto. Entretanto, a essência da escrita permanece, pois o oleiro incide no mesmo, agora cada parágrafo é de difícil empresa, uma empreitada dificultosa. Foi como incinerar biblioteca bem preservada e guardada senão com chaves mas com senha.

Hoje o que tenho a dizer é sobre uma certa cobrança enfileirada que chega de lugares mil e pousa sobre mim para que eu publique as ideias que na verdade sequer existem visivelmente e isso é um fato interessante, pois por não serem visíveis somos julgados tolos pelo silêncio. O silêncio incomoda a plateia; e que plateia seria essa? Um alguém. Na verdade, as ideias se tornam visíveis quando aparecem no momento único da escrita com o portal aberto de outra dimensão e da dimensão que se chega, vem e colabora, ali sim pode coexistir o eixo duplo da existência da ideia. Ali, exerce sua força empreendedora de escrita, vem de lugares distantes, ideias muito gratas, tenras e como brotos de plantas bem verdinhas.

A cobrança passa pela ideia de tolice que passa pelo tolo calado, pelo tolo sentado, pelo tolo olhando, contemplando apenas as coisas como se soubesse algo, mas isso fica tão batido que tudo fica muito pela metade, assim predomina o que ele não oferece, predomina aquilo que ele não concede aos circunstantes. O afã pela glória já existiu nesse homem por exemplo, os excessos, as manias de grandeza que ora o soerguem é que o apalpam para a visitação do pensamento, daí a cobrança, ninguém pode ser assim. Tanto mais ter deletado todas as postagens do blog letras estelares e não poder sequer reler o que sentiu: um blog de muita construção e sentimento.

É um diálogo cortado para sempre, terei de linkar de novo para o mundo aquelas linhas, fabricadas e originadas em estrelas e em letras, para o mundo estelar, grandiosas, fortes, arrasadoras, foi o fim da linha. Um sinal de fraqueza pura de espírito, apagar de luzes de algo espetacular, aquelas postagens antigas tinham muito de mim, carregavam em si dedilhadamente o símbolo e uma expressão.Pode ser que aqui se repitam muito de algumas delas, pode ser que crave ideias e imagens como fotografias e memórias e multiplique aquilo que foi o I e o letras estelares II seja mais forte e elegante do que o anterior. Faltava elegância e mais poesia naquelas cenas, talvez por isso apaguei. Vi muito forte planos dimensionais de extremo atrito existencial e deveras conflituoso.

Agora é hora de muito trabalho, muita empreitada, será difícil, mas não impossível, eis o novo blog.