Quando meu tio Wilson morreu pensei logo em minha mãe, de fato ela pode falecer também a qualquer momento e isso é o que me apavora. Perder mãe deve ser a coisa mais horripilante do mundo, ficarei sem chão, ela é minha única amiga. Em relação ao tio Wilson, o baque está vindo agora, porém em relação a todos os mortos da família, inclusive ele, parecem estar presentes, é como se a morte não fosse um desligamento ou de certa forma não significasse que eles não estivessem presentes. Quando digo baque, digo de forma paradoxal, pois sou sempre frio, mas o baque é que parece que a mortalidade está mais perto do que se imagina, inclusive a minha própria morte, 40 anos eu tenho, não sou imortal e venho me descuidando de minha saúde, o baque é que ele, o tio Wilson, parece não ter morrido, parece que ele ainda está presente e parece estar alertando a mim sobre os perigos dos excessos. No entanto, mesmo sem excessos, a morte pode acontecer a qualquer momento.
Um dia peguei um táxi e o taxista que era pastor evangélico disse sem me conhecer que se eu não parar com os excessos fatalmente terei de me despedir deste mundo mais cedo. É fato que não quero me despedir deste mundo sem ao menos ter vencido na vida e ter parado com tudo que me prejudica, os excessos têm de acabar e as dívidas também. Pelos excessos é que a custo venho trabalhar e não tenho dúvidas de que de longe o tio Wilson me observa. Como minha mediunidade é fraca não consigo vê-lo, mas já há relatos de gente que o viu em seu quarto, mas eu consigo senti-lo quando faço coisas erradas. Já a situação da viúva dele, as coisas parecem estar mais complicadas, pois agora ela vive sozinha e isso deve ser muito ruim, às vezes ela busca refúgio em muitas pessoas erradas e ela teme também por morar sozinha na casa em que viveu com o Wilson.
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| By Sérgio Câmara |
Enfim, o tio Wilson me deixou assustado, ele se foi de uma maneira muito rápida e as pessoas quando morrem não deixam apenas saudades, as pessoas deixam as marcas da dependência de que nutriam as pessoas que as amavam. Ninguém queria que ele fosse, nem ele mesmo, um artista plástico de primeira, talvez tenha contraído o câncer devido à exposição prolongada à tintas tóxicas de que fazia uso sem proteção. Ele era muito divertido por sua inteligência, apesar de circunspecto e extremamente sistemático, sua morte só reforça a morte de todos os meus parentes inclusive a possibilidade de minha própria. Chega uma fase da vida da gente que os entes queridos se vão e vão deixando a nós sós neste mundo cão.
Meu primo Marcos, uma promessa; vovó, uma dádiva; vovô, um exemplo; tio Wilson, um prolongamento extrafísico da arte; papai, muito parecido comigo e que se foi apenas aos 46 anos de idade. Enfim, a morte é o fim do ciclo e pela qual temos de passar, infelizmente; eu, de minha parte, só espero que seja na paz do Senhor Jesus Cristo.

