A doença me pegou de repente, durante semanas um caroço me incomodou em minha bochecha, a princípio achei que não era nada grave, até que o oncologista diagnosticou coisa séria, desdenhei. Foram inúmeras sessões de rádio-terapia e quimioterapia. Minha mulher não estava gostando disso, ela odiava ter de passar por aqueles lugares tenebrosos comigo, mas eu tive força e encarei tudo com bastante cinismo. A morte, se tinha de chegar, chegaria na hora certa, sem choro nem vela. Ainda realizava atividades quotidianas comuns como ir ao supermercado e à padaria, mas também isso era cansativo, queria mesmo era o conforto do meu lar, não queria parar de produzir a minha arte, meu sonho artístico ainda não se fora, permanecia comigo em meu âmago.
Tinha alguns pesadelos, suava frio à noite, tossia uma tosse seca e sem precedentes, por fim até tive esperança de que ia me curar, da noite do pro dia quem sabe a sede viver poderia brotar e fazer com que eu vivesse mais algum tempo, quem sabe mais uns cinco anos, mas não, foi tudo muito rápido. Tive com a minha morte de abandonar minha família, minha esposa a quem tinha extrema devoção, indescritível amor, amparava a ela mesmo em suas crises mais agudas, mas que me serviam de aprendizado sempre. Na verdade, quer queira quer não, aprendíamos um com o outro, numa troca de afetos sutis e embelezadores da relação.
Deixei todos de mão abanando, minha irmã Enil, por exemplo, foi uma que demonstrou grande amor por mim e pela minha recuperação, agora já se passaram mais de três meses e estou ainda em estado de inconformismo, minhas coisas ainda são terrenas, a sede do meu pensamento ainda é carnal, ainda sofro algumas dores decorrente da doença, mas tenho o privilégio de conhecer o outro lado da moeda por aqui. Aqui posso aquilatar ainda mais os meus conhecimentos, minha prática artística teria sido muito beneficiada se eu soubesse anteriormente que os matizes e as paisagens daqui são inauditas, intransponíveis para o mundo carnal. Os olhos carnais jamais enxergariam os encantos do lado de cá e Deus me ampara em minha dor de perder a presença de meus entes queridos.
Dias antes de minha morte parecia que tudo corria bem, parecia que eu havia me recuperado, mas de uma hora para hora a enfermidade se alastrou para outros órgãos e meu corpo não suportou tamanha força do adoecimento. Fiquei em um leito de hospital vagando entre a consciência de estar ali e de não estar ali, como consciência por fora e inconsciência vagante, sabia que nessas horas de viagem astral eu já estava me despedindo. Enfim, acreditei em Deus, o ser maior da criação, deixei de ser ateu, para honrar minha existência com um toque refinado da divindade.
Percorri muitos lugares bonitos, mas de quando em quando retorno à terra para fazer visitações e matar a saudade dos lugares onde estive e com quem estive, principalmente com minha esposa Beth, que se viu totalmente desamparada neste fim de vida que tive. Ela lutou, lutou muito, minha irmã Enil, mais racionalmente também fez as suas contribuições, mas todas as vezes que eu ia "passear", queria mesmo era passear para lugares bons de se ir, não para tratamento oncológico em hospitais. No dia de meu sepultamento pude enxergar as faces de cada um ao se despedirem de mim, foi natural com eu esperava que fosse, sem mais delongas e sem ataques de nervos. Afirmo: todos hão de passar por essa fase, a fase da passagem da vida para a morte e tudo deve ser encarado com a maior naturalidade possível. Sejamos naturais.


