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terça-feira, 4 de junho de 2019

Leitura de O Continente de Érico Veríssimo


Foram-se lá 700 páginas divididas em dois livros (tomos) lidas, vindas de um escritor extremamente habilidoso. Sua narrativa tem riqueza de detalhes jamais vistos, trabalha também com flash-black e também faz as suas digressões temporais e histórias dentro de histórias. Além disso, a presença de ditados populares é marcante. No diálogo das personagens não fica de fora a sonoridade gaúcha de falar, parece que estamos no Rio Grande do Sul. A família vai e vai passando com o tempo e o vento, sempre que venta é que alguma coisa importante está acontecendo.

Ana Terra fora para mim encantadora, e triste fim fora o de Pedro, o índio, que chegara por acidente por aquelas bandas. Não bastasse o filho desta união desastrosa se chamasse Pedro também, quando mais velho conhecido como Pedro Terra, pai de Bibiana, que ocupa boa parte da narrativa, desde sua juventude bela até sua extrema velhice, esta se casara com um certo capitão Rodrigo, figura marcante, que o narrador se encarrega de enchê-lo de detalhes agradáveis, alegres e próprios de um bom gaúcho. Casaram-se a contragosto de Pedro Terra.

É possível visualizar plenamente o povoado em seus primórdios, o povoado de Santa Fé, pois as descrições suas são perspicazes, perfeitamente medidas, palavra por palavra, desde a figueira, o cemitério até o Sobrado. É um narrador onisciente, como ocorre durante as digressões psicológicas de Carl Winter, o médico, sobretudo muito interessantes. Em sua análise psicológica das personagens há o desejo, a decepção, o medo, a coragem, as contrariedades, a saudade, o amor, o desespero... As guerras contínuas dizimam muito boa parte dos homens de coragem daquelas bandas, mas dentro da verossimilhança histórica ir à guerra era uma questão de honra e comprovações de macheza.

No final e no início e entrecortadamente aparece a figura de Licurgo, também encantador, um cabra macho, noivo de Alice, mas que tinha uma amásia, homem de poucas palavras que teria como filho Rodrigo, figura central de O Retrato, continuação de O Continente.

Encaminho esta obra de Érico Veríssimo a todos os amantes de literatura e que tenham um gosto real por narrativas cheias, completas, embora o tempo histórico seja vertiginoso em alguns momentos, já o tempo psicológico se enche de miudezas em várias cabeças e os diálogos às vezes repletos de sarcasmo. Estão sempre presentes nesta obra a incerteza e os dilemas do destino. Obra magnífica, digna de grandes escritores brasileiros e do mundo, conta-se sobretudo a formação de um povo.